Milionário e Marciano recordam início: "Ninguém ficava rico"

Dupla, que lançou o DVD Lendas em 2016, comenta próximos passos da união e analisa a evolução do sertanejo no Brasil

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Divulgação

Milionário e Marciano se conhecem desde o começo das carreiras, no início dos anos 70. Mas nunca pensaram que em algum momento acabariam formando uma dupla. Os ex-parceiros de José Rico e João Mineiro, repectivamente, acabaram juntando as duas trajetórias de sucesso de forma casual e por intermédio de um terceiro.

Um ano após a morte do parceiro José Rico, em 2015, Milionário não queria mais continuar a cantar sozinho. Ao notar que o músico provavelmente se aposentaria, Sorocaba resolveu fazer a proposta que os dois se juntassem e fizessem um projeto que, inicialmente, duraria um ano e meio e geraria o DVD Lendas.

O cantor e empresário, no entanto, acertou na ideia e a parceria já tem previsão de permanecer na ativa até o fim de 2018, quando completa quase três anos. Mas pode durar até mais, se depender da vontade dos dois. Milionário e Marciano acreditam que a união deu um ânimo novo aos dois, que já estão há quase 50 anos na estrada.

Em entrevista ao R7, os cantores comentam a parceria de sucesso, relembram os antigos parceiros e contam como ajudaram a transformar o sertanejo em estilo popular nacionalmente.

R7 — Nunca passou pela cabeça de vocês essa dupla. Como foi receber o convite de alguém de fora?

Milionário — Fiquei surpreso com o convite. Eu tava parado há um ano. Não ia me aposentar. Fiquei doente logo após a morte do José Rico. Mas sozinho eu não queria mais seguir adiante. Fiz uns shows com a imagem do Zé no telão para cumprir a agenda, mas achei que esse formato era uma enganação. Não tava bom. Aí pedi pro empresário cancelar a turnê. Eu estava contrariado. Com o Marciano, resolvemos isso. Porque ali tem uma verdade.

Marciano — Já conhecia o Milionário desde o início da carreira. Já estava há 23 anos com carreira solo, mas me juntar a alguém com o histórico dele foi tentador. Aceitei na hora, porque ainda juntava a administração do Sorocaba, o que soma muito ao projeto. Era um ano e meio de contrato inicialmente, mas foi tão bom que temos pelo menos mais um ano pela frente.

"Os maestros nos anos 70 nem queriam ser vinculados ao sertanejo. Mas em cerca de uma década tudo mudou e passamos a ser respeitados"

Milionário

R7 — As duplas de onde vocês vieram têm perfis diferentes. Como foi casar as vozes?

Milionário — As diferenças das duplas são poucas. O Zé cantava mais alto que o Marciano. Por isso precisamos adaptar as vozes. Mas conseguimos fazer novos arranjos para isso e soa bem.

Marciano — Eu não quero nem me comparar ao Zé. Eu não tenho a capacidade de colocar o sentimento na música como ele fazia. Eu canto mais sussurrado e romântico e o Zé interpretava diferente.

R7 — Vocês começaram em uma época que o sertanejo era visto com preconceito. Como foi superar essa fase?

Milionário — Nos anos 70, as gravadoras não davam estrutura para que a gente gravasse grandes discos. Não tinha orçamento pra nós. Mas nos anos 80 as coisas começaram a mudar. Tinha violino, maestro, orquestra, coro. Os maestros nos anos 70 nem queriam ser vinculados ao sertanejo. Mas em cerca de uma década tudo mudou e passamos a ser respeitados. Fomos conquistando o Brasil a partir daí. Quando a gente colocou guitarra e bateria nas músicas, os radialistas nos detonavam. Mas impusemos essa modernidade na música sertaneja. Sem isso, não estaríamos nessa posição hoje.

Marciano — Nos anos 70 a gente tocava só em circo. Era mambembe mesmo. Quando os prefeitos abriram espaço para nós em aniversários de cidade e as festas de peões foram criadas, aí a coisa mudou. Porque circo era complicado para bombar e ficar rico. A gente trabalhava para viver. Era cachê de R$ 1 mil no dinheiro de hoje. Ninguém ficava rico.

Milionário — Era complicado. Primeiro carro que comprei foi um Chevette. Não dava para ter mais que isso. Fui comprar um Mustang e o Marciano uma Mercedes nos anos 80, que é quando adquirimos nossas fazendas também.

Marciano — E tinha outros preconceitos também. O Amado Batista era chamado de brega, mas é um cantor sertanejo. E o cara vendeu milhões. Mas sempre foi rejeitado. Roberto Carlos só não é brega porque é global. Amado Batista é um Roberto Carlos goiano. Canta até igual. Mas ninguém ousa dizer isso.

R7 — Mas desde então o estilo mudou bastante e inclusive virou mais pop do que nunca. Como vocês avaliam isso?

Milionário — Eu vejo com bons olhos. Essa molecada criou um padrão de compor bem radiofônico, um verso e um refrão e tá pronta a música. Além disso, hoje os jovens cantores sabem gerenciar a própria carreira. Na nossa época, isso era algo que ninguém fazia, porque a gente não sabia mesmo. Só que gravar esse tipo de coisa moderna não faria sentido para nós. Temos um estilo próprio e nosso show é tipo um baile da saudade, que reúne muita gente que quer ouvir o que tocou na vida deles quando eram jovens. Mas isso não quer dizer que não trocamos ideias. Dá para aprender muito com o Sorocaba, assim como ele também aprende com nós, por exemplo.

R7 — Vocês ficaram famosos com outros parceiros e isso ainda é bastante marcante. José Rico, por exemplo, é uma figura única no sertanejo e bastante celebrada. Vocês pensam em fazer homenagens a eles nos shows?

Milionário — A gente começou a cantar sem ter essa preocupação em vender um estilo que fosse aceito pela mídia. O José Rico parecia um roqueiro. Era autêntico demais. Por isso é lembrado. O Marciano também. Ele é único. Não existe figura igual. Mas o show em si já uma homenagem. E em março faz três anos que o Zé nos deixou. Mas não vamos fazer nada a respeito, não. Ele não gostava dessas coisas. Sempre disse que não queria biografia, filme, nada sobre a vida dele. Então eu respeito o máximo que posso essa postura do cara, de manter a privacidade.